segunda-feira, agosto 14, 2006

Desviar, desviar, disparar, disparar...



Sete da tarde. Um dia normal de Verão, calor intenso, ligeiramente dissipado pela proximidade de um crepúsculo que cada vez surge mais tarde. A pachorrice de uma cidade em férias deixa ouvir apenas as cigarras, aqui e ali o barulho de um carro, de quando em vez, um avião, certamente carregado de turistas prontos a ocupar os lugares deixados pelos nativos, que partiram em busca dos seus próprios destinos de férias.

- Caramba mais este nível!!!
- Eh! Então?... Outra vez agarrado a essa porcaria de jogo?
- Filho da mãe... sempre com truques... Não consigo passar aquele ponto.
- Ao menos podias fazer menos barulho? Há quem esteja a tentar ser produtivo...
- A ler um livro? Lamento mas já foi escrito, se tanto produzes manchas de suor nas folhas. Tá uma caloraça insuportável.
- Cultura, seu cro-magnon... Produz-se alguma cultura. Que produzes tu?
- Rebento cabeças de monstros e fujo dos feixes de protões...
- O mundo está salvo, então...

Bom, talvez o calor não estivesse tão dissipado quanto pensaria. Estava entretido para evitar adormecer, tal a moleza que dias destes trazem. Mas nesta altura reconsiderava a hipótese de desligar tudo e fechar os olhos... Tarde demais. A pessimista cultural estava apenas a começar a aquecer...
- Tanta coisa que se pode fazer, ler um livro, ir passear, dar sangue, ver uma exposição... Às vezes, é olhando para pessoas como tu que me ponho a pensar onde é que isto vai parar... Ninguém vai ao teatro, ninguém vai ao cinema ver um filme que não tenha 90% de explosões, gajas em topless ou tiros de metralhadoras, ninguém vai ver uma exposição a algum museu. Está tudo na internet ou na televisão... Se querem entretenimento, vão ligar a Playstation e afundar os olhos no ecrã a tentar passar por níveis e fazer coisas que não interessam a ninguém e que só enriquecem os nerds japoneses que programam essas porcarias. O trabalho de um escritor, ou de um encenador, ou de um pintor... nah, isso é para os outros, os cromos pretenciosos...

Pior que tentar passar um nível avançado neste jogo, é ter de fazê-lo enquanto uma pessoa na mesma sala desvirtua toda a piada de o fazer. Isso e gesticular de tal maneira que começa a ser complicado perceber onde estão os monstros, se no ecrã se no sofá mesmo aqui ao lado. Não deixo de sentir que ela tem razão, e que talvez pudesse estar a aproveitar melhor o tempo, mas só me faltam três elixires de energia para conseguir ultrapassar a cave dos zombies...

- Horas a fio que se perdem a ver essas coisas, horas a fio que podiam ser utilizadas para outros fins. Quantos livros lestes estes últimos meses?- o ataque continuava, mas já tinha passado a parte dos zombies. Aos poucos, passar este nível começa a parecer fácil, comparado com a violência que aqui ao lado se passava- Vá, lá, quantos? Tudo bem... Talvez não seja a tua actividade preferida... E museus, a quantos foste? Caramba, algo tão simples como sair de casa, comprar um bilhete e entrar e apreciar algo que, de uma forma especial, é extraordinária... um quadro pintado, uma peça esculpida, o engenho do homem concentrado nalguma folha de papel. Mas não, é internet, é televisão, é cinema do mais estapafúrdio... Diacho, inventaram a internet para se evitar o contacto entre pessoas. Isto é ridículo! Cabe na cabeça de alguém viver sem tocar noutras pessoas?- só me falta um monstro, agora, antes de chegar à parte fatídica deste nível...- Vá lá ainda jogas à bola e andas de bicicleta, porque senão serias uma autêntica batata de sofá. Não me leves a mal, eu só acho que podes fazer mais coisas com o tempo que tens disponível. Toda a gente deve aproveitar melhor o tempo que tem disponível, e talvez tentar contribuir para a existência de actividades como a arte, a música que tanto gostamos...- é agora, desviar, desviar, disparar, disparar...- Mas tudo bem, também ninguém tem de ser igual. Nem todos têm de gostar de ler, de tocar um instrumento, de pintar. Só um pouco menos de futilidade na forma como se vive, como se aproveita a coexistência com as outras pessoas, a troca de experiências. Nem o amor, hoje em dia, decorre sem os sms ou os messengers... Tudo á distância, a um toque de teclado. Tudo virtual... Não tarda esquecemo-nos de sentir...- só falta um tiro certeiro...
- Arghhh!!! Caramba mais este nível!!!
- Enfim, desisto... Estou a falar para o boneco, não vale a pena... Vou à cozinha, preciso de café... Ou algo mais forte.
- Se fores buscar uma cerveja, traz-me uma também.
Ela respondeu com um grunhido. Já não era a primeira vez que as diferenças entre o aproveitamento particular dos tempos livres eclodiam num manifesto pessimista anti-era dos telemóveis. Não deixo de concordar com ela, mas quando existe espaço para a escolha, naturalmente que a comodidade ganha em qualquer campo. E num dia de calor destes, só sair à rua torna qualquer aventura cultural numa tarefa herculiana. Nem todos gostam de ler livros, e talvez a internet, quando bem utilizada, possa ser bem mais instrutiva que um livro. Afinal, a internet é criada por pessoas, para pessoas, com o intuito de chegar a mais locais e a ser compreendida mais rapidamente e eficazmente. A internet já ulptrapassou a televisão como elemento mais instrutivo, e sem dúvida, mais imediato. Nem mesmo uma visita ao museu dispensa uma consulta de preços e horários e programa nalgum site existente. Nada substituí o prazer de ler um livro, de pegar numa folha e desenhar, de conversar olhos nos olhos com um amigo. Acho que a internet já perdeu essa batalha mesmo antes de ter começado.

Neste dia normal de Verão de calor intenso, com a noite a ameaçar terminar o crepúsculo, reiniciei a Playstation, peguei no comando e sentei-me diante do televisor. Queria mesmo terminar aquele nível. Talvez a cerveja a fizesse acalmar...
- Está aqui a tua cerveja- disse ao regressar da cozinha- se quiseres trago-te um copo.
- Não é preciso, obrigado.
- Tá a ficar escuro. Vou aceder o candeeiro.
- Sim sim, faz isso.
- Ainda a tentar passar esse nível?
- Estou quase a desistir, falha-me sempre qualquer coisa, um salto ou um tiro...
- Deixas-me tentar?
- Claro...
- Explica lá os básicos disto.
- Rebentas cabeças de monstros e foges dos feixes de protões...
- Parece fácil, acho que consigo salvar o mundo.

domingo, julho 09, 2006

Galeão é o termo técnico correcto (Stockholm Trip 2)


O Vasamuseet estava situado mesmo à entrada do Djurgärdens Park. Conseguimos facilmente dar com o edifício tal a complexidade da sua arquitectura. Foi totalmente construído em torno do galeão, após este ter sido resgatado inteiro do fundo do mar, tendo por isso um aspecto muito particular. Cheios de vontade, ainda a fugir do condutor de autocarro, lá entramos no museu... Para não variar, pagámos uma fortuna para entrar. Para não variar, sorrimos sem esconder o dente amarelo do sarcasmo.

- Caramba, mais um destes museus e estamos falidos...- disse a olhar para as poucas coroas que tinha na carteira- Sabes lavar pratos? Eu posso ir trabalhar para um atelier.
- Tens razão, isto começa a... Eh, espera lá... Eu lavar pratos e tu procurar um atelier?
- Este barco é lindo- esta vai ser uma longa visita ao museu...
- Sim sim, muito lindo, e diz-se galeão, é o termo técnico correcto, galeão, navio de alto bordo. E porque carga de água "eu" iria lavar pratos enquanto voscelência iria trabalhar para um atelier?
- Eh pah, disse da boca para fora... Vamos subir? Quero ver o "galeão" de cima.

Era de facto imponente. O maior da sua época. Para o observarmos do topo, tinhamos de subir quatro andares, cada um com uma perspectiva diferente e pedagógica sobre o Vasa. Tentei sempre utilizar as escadas, receava estar fechado com ela, neste momento, num elevador. Por mais que custasse cada degrau, era um apaziguador da sua fúria, talvez chegasse ao último piso suficientemente cansada para não se conseguir jorrar da enxurrada de impropérios que decerto preparava.

Chegado ao topo, e deslumbrado pela perspectiva do navio, procurei um local para me sentar e apreciar cada centímetro do convés. Dir-se-ia intacto, tal a perfeição dos seus pormenores. Quem diria que esteve séculos debaixo de água:
-Pena não podermos caminhar lá dentro. Adorava ver de perto cada divisão e cada recanto, não achas?
- Não sei, acho que não teria capacidade para ver mais do que o lava-loiças da cozinha, se é que isso existe aí...
O plano tinha falhado, redondamente. "Porque insisti que ela tivesse aulas de ginástica?"... Nem um pingo de suor no rosto dela, e os olhos em busca de um alvo para destruir.

- Acho sinceramente impressionante que tenhas dito aquilo. Não achas que eu teria capacidade de arranjar emprego um pouco mais... seja, ao teu nível? Aliás, se é que o teu nível é equivalente ao "trabalhar num atelier".
- Disse da boca para fora, estava a brincar. Talvez com o meu tom de pele e olhos claros, passaria mais despercebido.
- Caramba, queres que te atire uma corda, para saires do buraco?
- Sinceramente era para ser uma piada...
- Realmente o machismo continua entranhado no sangue latino... Fosses tu mais sueco, pelo menos por dentro.
Remeti-me ao silêncio. Qualquer coisa que dissesse teria efeitos nefastos. E afinal, tinhamos acabado de ver o museu e ainda existiam uns destinos para visitar ainda hoje, era imperioso que ela estivesse de bom humor.

Saimos do Vasamuseet e deixando o tecnicamente correcto "galeão" Vasa para trás. O passo seguinte era alugar umas bicicletas e aproveitar para passear ao longo da ilha de Djurgärdens. Estava fresco, apesar do brilho intenso do Sol. Tempo escandinavo, sem dúvida. Um pouco de exercício era mesmo o necessário. Viam-se poucas nuvens no céu azul e uma aragem muito leve exigia um aproveitamento do verdejante parque. Antes, parámos para beber um chocolate quente, falhados os degraus do museu, talvez este doce iria acalmar a fera. Dito e feito, deixou escapar alguns sorrisos enquanto escolhiamos as bicicletas.

A ideia era seguir um caminho de gravilha que dava uma volta completa à ilha, sempre na orla do Lago Mälaren e dos bosques que se encontravam mais para o interior. O tempo convidava a um passeio calmo, sossegado. Talvez com uma paragem ou outra, dado que iriamos passar por locais de interesse turístico. Bom, isso e termos de dar descanso aos rabos, concerteza desconfortáveis depois de uns minutos sentados no selim.

Passamos por vários locais, o Aquaria, o parque de diversões Gröna Lund, a galeria de arte Thielska... O ritmo era bom, o tempo ajudava, e o sempre disponível verde da paisagem culminavam em pequenos momentos fotográficos digos de postais, posters ou cartazes turísticos de forma a angariar mais clientes desta bela cidade. Ficamos ambos espantados com a proximidade que existe entre os escandinavos e a natureza, e da forma como a defendem e aproveitam e a vivem. Aqui e ali surgiam cavaleiros a passear, pessoas a fazer jogging, um ou outro afoito ciclista como nós... Tudo parece tão normal.

Por entre caminhos estreitos, serpenteantes, fomos deixando para trás pequenos miradouros, casas de campo, pequenos ancoradouros, aqui e ali um parque infantil com baloiços e escorregas. A volta de bicicleta parecia estar a esgotar-se, mesmo em ritmo lento, a facilidade com que nos deslocávamos era espantosa. Seria o ar que havia para respirar, o vento pelas costas ou termos ocasionalmente um cão a correr atrás de nós, demos uma volta à ilha em menos de nada. Ainda nos restavam uns dez minutos antes de entregarmos as bicicletas. Procuramos um ponto mais alto, de onde pudessemos observar a ilha mais uma vez. Sentamo-nos para apreciar a calma, o burburinho da cidade, as tonalidades verdes da paisagem. Estavamos junto à ponte que une a ilha ao resto do arquipélago. O movimento era pouco, afinal, era fim de semana. Estamos de olhos semi-cerrados, ofuscados pelo brilho reluzente dos reflexos do sol sobre a água. Ouvem-se ao longe as sinetas dos barcos ancorados, no ar pairam aves ao sabor da brisa que corre. Pensava em algo para dizer, ela adiantou-se:

- Sabias que as gaivotas são as únicas aves que defecam em vôo?

Fiquei em silêncio... qualquer coisa que dissesse, estragaria o momento.

sexta-feira, abril 28, 2006

Eh pah, este café é terrível (Stockholm Trip 1)




"Neste stasjon, Gamla Stan". Uma voz grossa, pesada do tabaco, digna da personagem principal de um filme de terror (o assassino psicopata anti-social), ecoava nos altifalantes do T-Bana.

- É aqui, temos de sair aqui...
- Tens a certeza?
- É o que diz no mapa.
- Mas percebeste alguma coisa do que o tipo disse?
- Não, mas pela voz do gajo é melhor sairmos senão ele ataca-nos com uma moto-serra... Vá, pira-te.

Estavamos em Estocolmo, finais de Abril.... e tinhamos saído de facto na paragem correcta. A Primavera escandinava já se fazia sentir. Não existia uma mancha branca de neve à vista e corria uma aragem fresca, mas perfeitamente suportável. O Sol fazia antever um bom dia para passear e melhor, como não haviam nuvens, o por-do-sol prometia ser espectacular.
- Isto é lindíssimo!
- Sem dúvida- parámos na Old Town, fitando uma das margens da cidade. A cidade de Estocolmo é constituída por inúmeros arquipélagos, unidos por pontes. Não é uma cidade densamente povoada, pelo menos nas zonas centrais, ao contrário do que estamos habituados. Podemos ver os picos das torres de igrejas mais famosas e nunca se vê um arranha-céus desmedido no horizonte da cidade.

Ainda era cedo, mas já existia actividade suficiente para sentir que a nossa presença no meio da rua era turisticamente indesejada, visto quase termos sido atropelados por uma ciclista.
- Bolas, não é o condutor do Metro é uma tipa perversa loiraça numa bicicleta assassina...
- Vamos mas é sair da ciclovia... Não queres ir beber um café?
- Café? Aqui... Água suja, diz antes...
- Não sejas assim, deve ser bom de certeza...
- Pobre rapariga, não sabes no que te metes- como se não bastasse eu conhecer o "saboroso" café escandinavo, fiquei com vontade de seguir a potencial homicida de cabelo doirado, que se dirigiu na direcção oposta... "Diacho, onde anda a minha bicicleta quando preciso dela".

Entramos na Gamla Stan, que é, no fundo, o bairro mais característico e antigo de Estocolmo. É um conjunto de ruas estreitas, entrelaçadas, pejadas de lojinhas curiosas, com produtos curiosos. Muitos restaurantes e cafés. Algumas lojas de souvenires, como era de esperar, alguns bares. Dentro dele estamos numas cidade completamente diferente, quase latina, pela proximidade dos edifícios e consequente proximidade das pessoas, que passeiam animadas, seja a pé seja de bicicleta. Encontramos um café perdido no meio de uma praça sem sabermos muito bem como:
- Ainda bem que não percebemos nada de mapas... Não dávamos com este sítio. Vais querer café?
- Nem penses, quero ver o menu.
- Puto imbirrante... Vem aí o empregado, falas tu?
- Ver se não me engano e peço dois arenques fumados...

Lá arranhei o meu inglês, espero ter feito o pedido certo. A praceta era pequena, mas muito característica. A roubar o protagonismo estava o Nobelmuseet, o Museu dos Nobel, circundado por pequenos edifícios antigos, essencialmente construidos em madeira, pintados de várias cores, dando a ideia de uma manta de retalhos. O topo de cada edifício é diferente, com os seus rococós. As janelas, muito ortogonais e semelhantes, criavam um padrão interessante, decoradas aqui e ali com plantas ou flores, complementando o aspecto único da praça. Intervalando os prédios estavam pequenas e estreitas ruas em empedrado, desenhando uma curiosa teia de caminhos, dando a ideia de estarmos, de facto, no centro de tudo. Ouviam-se alguns pássaros, algum burburinho citadino, característico pela total ausência de buzinadelas e pelo barulho metálico, repetitivo e quase sci-fi do T-Bana, ao passar pela ponte de ferro que une a T-Centralen (Estação Central) e a zona de Slussen. Entrentanto, enquanto decidíamos onde ir, tinha chegado o nosso pedido. Estavamos indecisos entre a ilha de Skeppsholmen, onde estava o Moderna Museet (Museu de Arte Moderna) e o Arkitekturmuseet (Museu de Arquitectura), ou a ilha de Djurgärden Park, onde estava o Vasamuseet (onde estava o galeão Vasa). De qualquer maneira, tinhamos decidido alugar umas bicicletas para conhecermos melhor a cidade.
- Eh pah, este café é terrível...- sorri para dentro enquanto saboreava o meu chocolate quente.

Antes de sermos atacados pela pachorrice, iniciámos o nosso plano. Tinhamos decidido ir a Djurgärdens Park, pois existiam lá uns locais para visitar e muito caminho para percorrer com as bicicletas. Com alguma sorte, iríamos encontrar um local para vermos o por-do sol. Pagamos uma pequena fortuna pelo café, o que a fez reclamar um pouco mais, e lá fomos perdidos pelas ruelas, em busca do autocarro número 47, que nos iria levar perto do Museu Vasa.
O autocarro percorreu boa parte da rua mais comercial da cidade. Muitas lojas de roupa, design, um ambiente a todos os níveis cosmopolita. A espaços passávamos por pequenas praças, pejadas de esplanadas, quiosques de flores e algumas tendas de bugiganga. Não era de estranhar o movimento intenso de pessoas nestes locais. Pareciamos crianças dentro do autocarro, saltando de banco em banco e apontado para tudo o que fosse engraçado, concerteza enervando todos os outros passageiros. "Neste stasjon, Vasamuseet!"
- Argh, é o tipo do metro outra vez!!! Pira-te, é aqui!

quarta-feira, abril 05, 2006

Combate de Sumo

Eram 5 horas da tarde. Uma cor alaranjada, crespuscular, enchia a sala, espalhando sombras pelas paredes, aquecendo a casa, convidando à reflexão. Ouviam-se uns pássaros, o burburinho da cidade entra pela janela, aberta de par em par, deixando deslocar-se uma pequena corrente de ar. De facto, um destes dias convidava ao passeio, à descoberta das ruas, dos recantos, daquela esplanada. Tinha de estar em casa a arrumar a minha trouxa, mas não deixava de sentir um aperto no estômago por não estar a aproveitar esta dádiva da natureza, esta bela tarde de Primavera. Bom, ou isso, ou o almoço começava a ser digerido.

- Eh lá, (fiiuuu)... Que é que morreu aqui?
- Pouca bulha, acho que estou mal do estômago.
- A feijoada da tua mãe é fogo, ah ah ah.
- Goza, goza... Tou farto de dizer aquela mulher que não gosto de feijoada ao almoço. Passo o resto do dia a pensar que tenho um combate de Sumo na barriga- terrível hábito familiar, feijoada ao domingo de tarde, acho que a minha mãe o faz para nos educar... ou isso ou pelo prazer de sentir que ainda tem poder sobre a nossa existência.
- Bom, para a próxima, tenta comer um pouco de deodorizante também...
- Sim, sim...
- Que fazes?
- Descubro como a vida é ingrata para aqueles que gostam de viajar.

Já faz três horas que ando à volta da mochila, a tentar desesperadamente arrumar nela toda a roupa que vou precisar para uma semana de férias. Sou um fiel seguidor do travel light, acho que funciona muito bem para quem consegue sobreviver debaixo do cheiro de suor e de sebo, com uma mochila às costas, sem se preocupar com as clareiras que vai abrindo entre os locais nas zonas que visita. Levo sempre um pouco mais de roupa, por mais que a mochila rebente as costuras, não seria apanhado num país estrangeiro num estado lastimável: sem dinheiro, ok; perdido, muito bem; desesperado, pode ser, mas nunca de calças rotas castanhas, que outrora eram jeans azuis, e t-shirt com marcas dos sovacos ou dos locais que atravessei.

- Para variar, continuas a exagerar na quantidade de roupa que levas.
- Já te disse o que penso disso...
- Ok, ok, simplesmente, acho que podes prolongar a vida das tuas costas e da tua paciência com umas pequenas poupanças de tecido.
- Pah, isto já deu uma vez no ano passado, isto há de dar outra este ano.
- Ok, vou fazer chá, interessado?
- Sim, pode ser, pode... - precisava de calma, estava quase a conseguir... só tinha de encaixar o saco-cama entre as meias e a toalha do banho que estava prestes a saltar da mochila.

Viajar tem este condão de nos motivar a continuar a fazê-lo. Por mais que soframos a arrumar malas, a escolher roupa, destino, pessoas com quem ir, pessoas que vamos encontrar. Tenho esta ideia que viagens nunca correm mal. Que tudo pode originar uma descoberta, enganarmo-nos nas ruas, pensarmos que alugamos um quarto numa zona fantástica e afinal temos uma parede de tijolo a tapar a janela... enfim. Hoje posso dizer que vivo para viajar, quem sabe, à procura de um novo poiso. Mas, primeiro, conseguir que os boxers caibam na bolsa de lado da moch...
- ARGHH!!! - como esperado, explodiu.
- Precisas de ajuda? - perguntou ela, com um tom jocoso, mexendo o chá com uma colher.
- Não sei como podes resolver esta situação, mas podes tentar.

Ela, muito calmamente, poisou o chá, esvaziou a mochila, alinhou as peças de roupa uma a uma, começou a colocá-las, e como por artes mágicas, com a destreza de um artesão idoso que executa o seu ofício de olhos fechados, empacotou a mochila em pouco mais de cinco minutos, com tudo o trapo que quis lá meter, sem sobrar nada, e ainda deu para ter folga nas presilhas dos fechos.

- Mas como? - perguntei perplexo...
- Vocês gajos só conseguem mesmo mijar de pé...
- Ei, também conseguimos apontar... - bom, alguns conseguem.

sábado, abril 01, 2006

Tecnologia de ponta o ca... (Isto é só desgraças 3)


(Continuação)

Chegado à zona das caixas, é natural que teria de aliviar um pouco a carga. O cesto estava cheio, pesado, ao invés dos meus bolsos. Manobras de evasão eram necessárias, um novo plano já estava a ser traçado... as compras supérfulas iriam ter de desaparecer.

Voltei atrás, tive de passar de novo pela zona das bebidas, deixei uma das Coca-Colas, devolvi os pacotes de batata-frita à prateleira... Contei os trocos... o detergente também teria de ficar, afinal, não tenho de mudar sempre de meias ou de calças de ganga. Ah, claro, as pastilhas também eram lastro... iria deixá-las na zona das caixas.

Como tudo na vida, nem sempre as coisas correm como planeamos. Quando pensamos que temos tudo sobre controlo, algo ou alguém arranja maneira de nos fazer repensar nos passos que temos planeados. Nem sempre é bom, nem sempre é mau (sempre levo uma garrafa de Coca-Cola para casa). Apesar de tudo, interessa saber recalcular trajectórias, ver outras saídas, talvez até planear menos. Interessa saber que cada passo dado é um avanço, e que cada recuo, é um desvio apenas para um passo maior. "Living is learning", lá diz o outro. Sim, concordo. Hoje aprendi mais qualquer coisa, aqui mesmo, entre os pensos higiénicos e as fraldas para bebé, rodeado de gente indiferente, com seus fatos de treino vestidos, e da senhora velhota de muletas, que ainda me olha de alto abaixo com desprezo, depois do incidente na zona da padaria.
Dirigi-me às caixas, refeito das minhas derrotas, ciente da lição aprendida. Tão contentado que decidi que iria passar pela padaria, comprar um bolo. Uma pequena prenda pelos meus avanços. O dinheiro chegou mesmo à conta... E ainda sobrava para o meu bolo. Afastei-me da caixa, ajeitando as poucas compras que tinha, dei um ultimo glance sobre o horizonte de produtos nas prateleiras... a senhora velhota de muletas ainda olhava para mim. Alura certa para sair.

O dia já ía avançado. Muita gente já tinha almoçado, mas ainda se sentia o cheiro dos fritos, provenientes dos milhentos restaurantes espalhados pelo bairro. As lojas chinesas ainda faziam negócio e algumas lojas de reparações ainda mantinham as portas abertas. Nunca se sabe quando uma televisão vai dar o berro, "tecnologia de ponta o ca..." lá diz o meu pai. Educadamente deixo escapar um sorriso sempre que ele o diz. O tempo continuava tímido, algumas nuvens ainda pairavam mas já se sentia algum calor. A chuva que ameaçava cair passou apenas a ser uma ténue ameaça. As ruas estavam mais calmas, com menos gente. O senhor Gomes já tinha recolhido as revistas e preparava-se para fechar o quiosque. Era melhor despachar-me, a padaria iria fechar em breve.

Entrei a correr pela padaria. Sentir o cheiro da farinha, do pão, é um dos prazeres que tenho. Não haviam clientes na loja. A dona Maria olhou para mim, com aquele olhar de "lá vem o cromo da hora de fecho". Não liguei muito, afinal, quase uma manhã perdida entre tentações, confusões, e uma boa lição zen aquirida numa garagem transformada em supermercado, eu estava ali para recolher o merecido prémio.
- Olá, dona Maria!- disse num tom entre o triunfante e o cordial.
- Diga menino...
- Queria uma arrufada, daquelas enormes que costuma ter, se faz favor.
Esperando ouvir o "concerteza, menino", já sentia o sabor do cocô a derreter-se na minha língua, o aveludado açucar em pó a misturar-se com a minha saliva, a massa tenra de farinha doce a ser moída pelos meus dentes...
- Já não temos menino, só pão quente.

quarta-feira, março 29, 2006

Malditas bolhinhas caramelizadas (Isto é só desgraças 2)

(Continuação)

Tenho uma técnica infalível para ir ao supermercado sem grandes chatices e de maneira a não comprar coisas que são desnecessárias: não ter muito dinheiro para gastar. Como não tinha trazido a carteira e só tinha comigo um punhado de trocos dentro do bolso, acho que tinha tudo a meu favor para fazer uma visita de médico a esta pequena montra de consumo.
O supermercado estava apinhado, claro. Peguei num cesto e comecei a demanda pelos produtos necessários.

Comparo a ida ao supermercado com o percorrer do nosso próprio caminho, que no fundo é a vida. Temos um percurso a trilhar, locais onde ir, onde parar mais tempo, onde vamos encontrar dúvidas, onde teremos de tomar decisões mais ou menos complicadas (batatas-fritas normais, com travo a presunto ou com sabor a pita shoarma). Ocasionalmente, conhecemos uma pessoa, amiga de outra, que também gosta de doses industriais de Nutella e de comprar o mesmo tipo de papel higiénico. Teremos problemas para chegar a certos sítios, que obrigam a uma maior ginástica (senhoras idosas mais desatentas que gostam de nos morder os calcanhares com os carrinhos de supermercado), outros que obrigam a fazer cálculos complicados, desvios de trajectória causados por tentações pérfidas (vinho de pacote em promoção).. Enfim, a nossa consciência está sempre a ser posta à prova. Somos peões no jogo do marketing grossista!

"Limões, limões...", onde param os limões... Logo à entrada, na zona da mercearia. Bom, deviam estar aqui, mas, vejo apenas umas bolas esverdeadas, meio esmurradas, com uma sinalética a dizer limões... Ok, altura de admitir: a Lei de Murphy existe, e hoje eu estava cheio dela.
"Limões não há, vamos à pasta de dentes...", zona de higiene. Diacho! Tenho de passar pelas bolachas para lá chegar... hummm... Belgas com chocolate, o belo do sortido Cuétara, as Oreos, argh, resistir, resistir... Antes de ceder aos tentáculos cremosos das bolachas com recheio de chocolate, consegui urdir um plano para fugir a esta espiral de depravação calórica: "preciso de detergente para a máquina de lavar roupa, ele está junto aos produtos para a casa, logo, posso desviar por ali, apanhá-lo, passar pela zona das bebidas, e desembocar no vale dos artigos de higiene". Soltei um "hooah" triunfante, que fez meio mundo olhar para mim surpreso. Ah, ah, ah, não me tentarás desta vez!

Peguei no detergente, estava caro, mas, tinha de ser... corria o risco de começar a lavar a roupa com água e calcário. "Ok, ok, one down, two to go...", pasta de dentes... Bastará não olhar para as Coca-Colas e é só um corredor para passar. Claro, quando cheguei perto das pastas de dentes, não havia a que uso. Só as topo de gama, branqueantes, suavizantes, descarieantes, deslumbrantes, "compre a nossa, e terá tudo o que sempre sonhou" (desde que seja qualquer coisa parecida com um hálito fresco). Argh! Escolhi a mais barata que consegui, comecei a lembrar-me dos poucos trocos que tinha... "Não está mau", acho que dá para o pão... Bom, claro, quando dei por mim, também tinha uma garrafa de Coca-Cola no cesto, um gajo não é de ferro. E que faziam aquelas pastilhas elásticas perto da embalagem do detergente? Fui directo à padaria, hoje era um daqueles dias onde todo e qualquer plano iria simplesmente falhar. Isto é só desgraças.

Juntando o útil ao agradável, quase não restava pão. Apanhei o último saco de carcaças... Uma pequena vitória, dado que o vi ser cobiçado por uma velhota que estava de muletas a dirigir-se a ele. "Pão? Check"... Bom, parecia que tinha tudo... Embora o cesto, aos poucos, me parecia mais pesado... OUTRA GARRAFA DE COLA?!? Malditas bolhinhas caramelizadas... sabem tão bem com... dois pacotes de batatas-fritas. Senti-me derrotado:

- Raios partam a...!

Nas Ilhas Maurícias não há pão de supermercado (Isto é só desgraças)



Às vezes ponho-me a olhar para as coisas e penso porque raio certas coisas acontecem. Digo... Porque é que a vida existe da forma como existe? Porque é que fomos parar a este calhau, a Terra? E porque raio é que nunca conseguimos abrir bem os pacotes de leite do dia à primeira?
- Raios partam esta...- lá tive de usar a faca para cortar a protecção de plástico.

Estava um daqueles dias que convidavam à introspecção. Tempo soturno, ínicio tímido de Primavera, algumas nuvens mais carregadas pairando e ameaçando uma mal-vinda chuva. Perfeito para me empanturrar de batatas-fritas e ver aqueles DVD's de filmes gore que se acumulavam em cima da televisão. Primeiro, tratar dos cereais, depois tomar um banho, ir ao pão... bom... posso tomar banho depois, os Clusters já estão no ponto e o pão sabe melhor quentinho.

Enquanto me dirigia para a padaria, comecei a pensar se não iria aproveitar melhor o dia dando um passeio, sair da cidade, ver outras coisas... Enfim, sair de casa. Ao passar pela banca de jornais:
- Olá senhor Gomes!- reparei numa revista que mostrava um desses fantásticos e tão acessíveis (a quem lá pode ir) paraísos. Bom, talvez as Maurícias fiquem longe, mas, existem algumas praias aqui por perto, com água menos transparente, e areia menos branca, e menos 15º de temperatura, e sem nenhuma rapariga morena, em bikini, a servir cocktails... Ao lado dessa revista, um jornal que falava de mais uma injustiça, alguém que conseguiu escapar aos tribunais porque "deixaram" prescrever a pena. Apeteceu-me dar cabo de alguém, pegar numa arma e rebentar com a mioleira a algum gajo... hum... logo, passar o resto do dia a jogar um jogo de guerra em frente ao computador... Bom, a gasolina está tão cara, e está mesmo prestes a chover, e as Maurícias estão tão longe, mesmo... e na internet podemos encontrar algumas raparigas de bikini, já tenho uma garrafa de Martini em casa... Isso fez-me lembrar que devia comprar limões.
- Não levo nada hoje, senhor Gomes, isto é só desgraças...

Hum... reorganizar... Padaria primeiro? Mas o supermercado está mesmo aqui ao lado. Corro o risco de não apanhar pão quente, será que preciso mesmo de limões? Bom, claro, sempre posso comprar pão, pasta de dentes, bolachas... Argh!!! O pão do supermercado sabe a plástico. Bom, se for suficientemente rápido... "Rápido?, num supermercado, ao fim da manhã de sábado?". Acho que soltei um sorriso. Bom, sempre poderia ir à padaria primeiro, e depois ao supermercado, mas depois o pão não fica quente, e depois onde meto o saco com o pão... "Que se lixe", pensei. Posso comprar pão quente noutra altura. Venha o sabor do tupperware!

segunda-feira, março 27, 2006

Aquele telemóvel não cabia no meu bolso...


- Tás a chorar?
- Quero miminhos...
- Oh que... Andaste a ver aquela porcaria outra vez?
- Hei- dei um berro mais forte- "Os Marretas" não são porcaria...
- Era só o que me faltava agora... Um gajo de 25 anos com ataques de saudosismo precoce.
- A lobotomia que te fizeram está mesmo a começar a fazer efeito... Para tua informação não estou a chorar, simplesmente estou a lembrar-me dos meus programas preferidos.
- Oh que...
- Atreve-te a dizer isso aqui em frente ao ecrã... Andas a negar ver isto faz tempo... Porquê?
- Porque não tenho tempo.
- Fogo, para quem não tem tempo passas muito tempo aqui em casa a gozar comigo...
- Olha, por falar nisso. Depois de pensar mais um pouco, acho que vou mesmo sair de casa dos meus pais...
- O... O QUÊ?- acho que consegui esconder alguma supresa negativa.
- Descansa, não venho morar para aqui... Pelo menos enquanto tiver outras possibilidades...

Uff, por momentos vi o meu castelo transformado num palácio de princesas, sem o meu fosso anti-dragões, substituído por uma piscina com área lounge e long-chairs, onde se iriam servir margueritas em vez de caldeirões de azeite a arder para deleitar os inimigos.
- Estive a ver uma casa com uma amiga minha. Iria alugar agora, só por uns tempos.
- Quem, aquela toda jeitosa?
- Sim. "Aquela toda jeitosa"... Estivemos a espreitar na internet umas possibilidades, mas ambas gostavamos de ter mais espaço, tipo, um quarto para cada uma, uma casa-de-banho espaçosa...
- Sim, imagino como seria, uma casa pequena, tu a saires do banho, ela a vestir os collants... "ajudas-me a secar as costas?", humm...
- Argh, que porco! Como é que eu ainda falo contigo destas coisas.
Ela saiu da sala, eu voltei para os meus "Marretas"... O Cocas é hilariante, mas o meu preferido é definitivamente o Animal!

Enquanto me acomodava no sofá, comecei a pensar no que ela me tinha dito. É estranho todo este saudosismo. Falso ou não, existe. Só o consigo explicar olhando para a forma como os tempos avançam tão depressa, hoje em dia. Existem tantas transformções, tantas coisas novas a acontecer a todo o instante, que é natural que este tipos de sentimentos surjam, também, um pouco mais cedo. Olho para um caso simples, os telemóveis. Quando nasci não existiam, depois apareceram, e já passaram por tantas transformações que se pode dizer que cresceram comigo, mas a um ritmo bem mais acelerado. Ainda me lembro dos telefones de disco, de aparecer o primeiro telefone de botões em minha casa, e do primeiro tijolo (vulgo telemóvel antigo). Tendo em conta que quando o meu pai tinha a minha idade existiam telefones de disco e que assim permaneceu até bem depois de eu nascer... Pelo menos, acho que é isto, não consigo pensar noutro tipo de explicação. Acaba por ser quase um gesto inconsciente.

- Eh, eh, eh...- o Fozie é hilariante!
- De que é que te estás a rir?- disse ela já de volta à sala, olhando de soslaio.
- Ah, voltaste...
- Precisava da tua opinião... Encontrei umas casas aqui num jornal que parecem interessantes. Três assoalhadas... Mas parecem tão pequenas...
- Sim, pode ser um problema, tu na sala em camisa de noite, ela a passar "ajudas-me a desapertar o soutien?", humm...
- Pah, juro-te que levas um sopapo se te pões com isso outra vez, nojento...-não tirei os olhos do televisor... Ela sentou-se na ponta do sofá, fingindo-se desatenta- Que episódio é esse?
- Aquele em que aparece o Alice Cooper, da terceira série...
- Ah... lembro-me disso... Lembro-me de ver esse na televisão em casa da minha avó.
Aos poucos foi-se acomodando no centro do sofá. É engraçado como somos imediatamente transportados para o passado num instante. Dizem que ainda não se inventou a máquina do tempo. Discordo plenamente... Podemos encontrá-la numa fita VHS ou numa cassete perdida entre a tralha que temos escondida na última prateleira do armário da marquise.
- Que se passa?- perguntei ao sentir um soluçar perto do meu ouvido.
- Quero as minhas bonecas...
- Oh que...

"Hot asians"



Começa a fazer um pouco mais de calor. Percebo pelas abundantes manchas de suor que se formam na camisola dela. Não me importo, até acho piada. Faz-me sentir mais perto de uma pessoa real e não de uma estátua, vulgo cânone criado e embelezado por uma sociedade sedenta de ser mais do que aquilo que de facto consegue ser.
- Está a ficar abafado, hum?
- Hum?... Ah sim... Está um pouco, sim. Abres a janela?
- Posso abrir, mas vais constipar-te.
- Nah, está calor lá fora... Abres a janela um pouco, estou aqui a acabar uma coisa.

Abri a janela... uma brisa fresca entrou pela sala adentro. Estava sol, tive de semi-cerrar os olhos. Algum burburinho lá fora, mas o bom de estar num bairro sossegado, no meio de uma cidade, sempre podemos apreciar um pouco as cores, formas e feitios das pessoas, carros, casas, etc, sem precisarmos de ginasticamente fugir de carros, motas de estafetas e dos constantemente esburacados passeios:
-Estamos mesmo a entrar na Primavera!- exclamei, de olhos fechados, fitando o sol com o rosto, que já sentia quente, enternecidamente acariciado pelos raios de luz, carregados de energia.
- Hum?... sim... bom, hum...- apoteótica reacção. Virei costas à luz, sentei-me no parapeito da janela, olhei para o relógio da parede... tinham passado dois minutos.

- Não tens computador em casa?
- Vais começar com essa história outra vez?- respondeu ela, continuando a teclar de forma mecânica, ininterrupta.
- Bom, acho que não tinhamos acabado a conversa da outra vez...
- Já te disse que o meu computador está estragado- ainda sem parar o dedilhado.
- Não me leves a mal, mas se precisas trabalhar com um computador, devias ter um só teu, com as tuas coisas, etc.
- Estás com medo que descubra as tuas pastas de imagens porno?
- Não é por isso- claro que era...- Como te disse, acho que seria mais fácil, nem sempre estou disponível, e por exemplo, não me apetece estar em casa agora.
- Já estou quase a acabar...
Soprei um pouco, mas ela provavelmente nem ouviu... É o que dá sermos prestáveis, alguém arranja sempre maneira de transformar a nossa boa vontade num serviço público com horário de expediente. Levantei-me e fui beber um copo de água.

Queria mesmo aproveitar o calorzinho. Passear nas ruas, pegar no carro sem destino. Bom, ok, ir aquele bar que serve aquelas tostas deliciosas e beber uma cerveja. Sou um gajo simples, com gostos simples... Simples, simples, não serei bem, e até gosto de coisas complexas. Facto, estar ali em casa fechado, à espera que aquela tipa se despachasse a escrever um texto qualquer... Punha-me nervoso. Desde que tenho um emprego que deixei de ter tempo para viver certas coisas. Perdemos de um lado, ganhamos de outro. No entanto, autorizo-me um momento de fúria sempre que penso na ironia vil de certas coisas: enquanto estudante, tinha tempo para tudo mas tinha sempre o dinheiro contado e os bolsos vazios, agora, trabalhador profissional, até tenho algum dinheiro para gastar mas pouco tempo para o gastar... Isto é mesmo gozar com um gajo.

- Pronto, acabei- disse ela, levantando-se.
- Finalmente. Vais imprimir?
- Sim...
- Ah, ah, eu disse-te que estava frio.
- Hum? Páras de olhar para o meu peito?
Corei um pouco, mas eu tinha-lhe dito. Parecia ter saído de um banho de água fria.
- Epá, vocês homens são sempre iguais... Fogo. Deviam nascer com um par de mamas só para perceberem o quanto isso é desagradável- Ok, nem era uma má ideia, desde que fossem tipo próteses, para eu não ter de olhar para o peito de um amigo meu e pensar coisas menos próprias... gack!
- Queres boleia para algum lado?
- Tás com cara de quem vai comer uma tosta lá aquele bar, né? Ok, aceito a boleia desde que me pagues um chá.
- Outra vez? É o computador, é o chá, levas-me à falência.
Ela sorriu. No fundo até agradecia a companhia, hoje apetecia-me comer a minha tosta mista enquanto discutia o novo orçamento de estado ou a recente tendência da política de esquerda nos países de Leste.
- Ah, já agora- virou-se ela, algo abruptamente- não escondas pornografia numa pasta com o nome "hot asians", não dá muita luta a quem anda à procura de elementos incriminatórios...

Porra!