Galeão é o termo técnico correcto (Stockholm Trip 2)

O Vasamuseet estava situado mesmo à entrada do Djurgärdens Park. Conseguimos facilmente dar com o edifício tal a complexidade da sua arquitectura. Foi totalmente construído em torno do galeão, após este ter sido resgatado inteiro do fundo do mar, tendo por isso um aspecto muito particular. Cheios de vontade, ainda a fugir do condutor de autocarro, lá entramos no museu... Para não variar, pagámos uma fortuna para entrar. Para não variar, sorrimos sem esconder o dente amarelo do sarcasmo.
- Caramba, mais um destes museus e estamos falidos...- disse a olhar para as poucas coroas que tinha na carteira- Sabes lavar pratos? Eu posso ir trabalhar para um atelier.
- Tens razão, isto começa a... Eh, espera lá... Eu lavar pratos e tu procurar um atelier?
- Este barco é lindo- esta vai ser uma longa visita ao museu...
- Sim sim, muito lindo, e diz-se galeão, é o termo técnico correcto, galeão, navio de alto bordo. E porque carga de água "eu" iria lavar pratos enquanto voscelência iria trabalhar para um atelier?
- Eh pah, disse da boca para fora... Vamos subir? Quero ver o "galeão" de cima.
Era de facto imponente. O maior da sua época. Para o observarmos do topo, tinhamos de subir quatro andares, cada um com uma perspectiva diferente e pedagógica sobre o Vasa. Tentei sempre utilizar as escadas, receava estar fechado com ela, neste momento, num elevador. Por mais que custasse cada degrau, era um apaziguador da sua fúria, talvez chegasse ao último piso suficientemente cansada para não se conseguir jorrar da enxurrada de impropérios que decerto preparava.
Chegado ao topo, e deslumbrado pela perspectiva do navio, procurei um local para me sentar e apreciar cada centímetro do convés. Dir-se-ia intacto, tal a perfeição dos seus pormenores. Quem diria que esteve séculos debaixo de água:
-Pena não podermos caminhar lá dentro. Adorava ver de perto cada divisão e cada recanto, não achas?
- Não sei, acho que não teria capacidade para ver mais do que o lava-loiças da cozinha, se é que isso existe aí...
O plano tinha falhado, redondamente. "Porque insisti que ela tivesse aulas de ginástica?"... Nem um pingo de suor no rosto dela, e os olhos em busca de um alvo para destruir.
- Acho sinceramente impressionante que tenhas dito aquilo. Não achas que eu teria capacidade de arranjar emprego um pouco mais... seja, ao teu nível? Aliás, se é que o teu nível é equivalente ao "trabalhar num atelier".
- Disse da boca para fora, estava a brincar. Talvez com o meu tom de pele e olhos claros, passaria mais despercebido.
- Caramba, queres que te atire uma corda, para saires do buraco?
- Sinceramente era para ser uma piada...
- Realmente o machismo continua entranhado no sangue latino... Fosses tu mais sueco, pelo menos por dentro.
Remeti-me ao silêncio. Qualquer coisa que dissesse teria efeitos nefastos. E afinal, tinhamos acabado de ver o museu e ainda existiam uns destinos para visitar ainda hoje, era imperioso que ela estivesse de bom humor.
Saimos do Vasamuseet e deixando o tecnicamente correcto "galeão" Vasa para trás. O passo seguinte era alugar umas bicicletas e aproveitar para passear ao longo da ilha de Djurgärdens. Estava fresco, apesar do brilho intenso do Sol. Tempo escandinavo, sem dúvida. Um pouco de exercício era mesmo o necessário. Viam-se poucas nuvens no céu azul e uma aragem muito leve exigia um aproveitamento do verdejante parque. Antes, parámos para beber um chocolate quente, falhados os degraus do museu, talvez este doce iria acalmar a fera. Dito e feito, deixou escapar alguns sorrisos enquanto escolhiamos as bicicletas.
A ideia era seguir um caminho de gravilha que dava uma volta completa à ilha, sempre na orla do Lago Mälaren e dos bosques que se encontravam mais para o interior. O tempo convidava a um passeio calmo, sossegado. Talvez com uma paragem ou outra, dado que iriamos passar por locais de interesse turístico. Bom, isso e termos de dar descanso aos rabos, concerteza desconfortáveis depois de uns minutos sentados no selim.
Passamos por vários locais, o Aquaria, o parque de diversões Gröna Lund, a galeria de arte Thielska... O ritmo era bom, o tempo ajudava, e o sempre disponível verde da paisagem culminavam em pequenos momentos fotográficos digos de postais, posters ou cartazes turísticos de forma a angariar mais clientes desta bela cidade. Ficamos ambos espantados com a proximidade que existe entre os escandinavos e a natureza, e da forma como a defendem e aproveitam e a vivem. Aqui e ali surgiam cavaleiros a passear, pessoas a fazer jogging, um ou outro afoito ciclista como nós... Tudo parece tão normal.
Por entre caminhos estreitos, serpenteantes, fomos deixando para trás pequenos miradouros, casas de campo, pequenos ancoradouros, aqui e ali um parque infantil com baloiços e escorregas. A volta de bicicleta parecia estar a esgotar-se, mesmo em ritmo lento, a facilidade com que nos deslocávamos era espantosa. Seria o ar que havia para respirar, o vento pelas costas ou termos ocasionalmente um cão a correr atrás de nós, demos uma volta à ilha em menos de nada. Ainda nos restavam uns dez minutos antes de entregarmos as bicicletas. Procuramos um ponto mais alto, de onde pudessemos observar a ilha mais uma vez. Sentamo-nos para apreciar a calma, o burburinho da cidade, as tonalidades verdes da paisagem. Estavamos junto à ponte que une a ilha ao resto do arquipélago. O movimento era pouco, afinal, era fim de semana. Estamos de olhos semi-cerrados, ofuscados pelo brilho reluzente dos reflexos do sol sobre a água. Ouvem-se ao longe as sinetas dos barcos ancorados, no ar pairam aves ao sabor da brisa que corre. Pensava em algo para dizer, ela adiantou-se:
- Sabias que as gaivotas são as únicas aves que defecam em vôo?
Fiquei em silêncio... qualquer coisa que dissesse, estragaria o momento.

4 Comments:
"- Sabia que as gaivotas são as únicas aves que defecam em vôo?"
Lindo!!! Quase tão bom quanto o lavar de pratos!
Eu quero direitos de autor :P
Finalmente acabou-se a dita história!
Obrigado, por momentos fizeste-me voltar a Estocolmo e acho que estaria tão melhor lá num dia quente como hoje... O chato é que sou demasiado morena provavelmente emprego lá só arranjaria mesmo como empregada de mesa. lol
Fica bem.
pat, um cerveja cobre os direitos? o meu advogado disse que sim...
bjão
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