Desviar, desviar, disparar, disparar...

Sete da tarde. Um dia normal de Verão, calor intenso, ligeiramente dissipado pela proximidade de um crepúsculo que cada vez surge mais tarde. A pachorrice de uma cidade em férias deixa ouvir apenas as cigarras, aqui e ali o barulho de um carro, de quando em vez, um avião, certamente carregado de turistas prontos a ocupar os lugares deixados pelos nativos, que partiram em busca dos seus próprios destinos de férias.
- Caramba mais este nível!!!
- Eh! Então?... Outra vez agarrado a essa porcaria de jogo?
- Filho da mãe... sempre com truques... Não consigo passar aquele ponto.
- Ao menos podias fazer menos barulho? Há quem esteja a tentar ser produtivo...
- A ler um livro? Lamento mas já foi escrito, se tanto produzes manchas de suor nas folhas. Tá uma caloraça insuportável.
- Cultura, seu cro-magnon... Produz-se alguma cultura. Que produzes tu?
- Rebento cabeças de monstros e fujo dos feixes de protões...
- O mundo está salvo, então...
Bom, talvez o calor não estivesse tão dissipado quanto pensaria. Estava entretido para evitar adormecer, tal a moleza que dias destes trazem. Mas nesta altura reconsiderava a hipótese de desligar tudo e fechar os olhos... Tarde demais. A pessimista cultural estava apenas a começar a aquecer...
- Tanta coisa que se pode fazer, ler um livro, ir passear, dar sangue, ver uma exposição... Às vezes, é olhando para pessoas como tu que me ponho a pensar onde é que isto vai parar... Ninguém vai ao teatro, ninguém vai ao cinema ver um filme que não tenha 90% de explosões, gajas em topless ou tiros de metralhadoras, ninguém vai ver uma exposição a algum museu. Está tudo na internet ou na televisão... Se querem entretenimento, vão ligar a Playstation e afundar os olhos no ecrã a tentar passar por níveis e fazer coisas que não interessam a ninguém e que só enriquecem os nerds japoneses que programam essas porcarias. O trabalho de um escritor, ou de um encenador, ou de um pintor... nah, isso é para os outros, os cromos pretenciosos...
Pior que tentar passar um nível avançado neste jogo, é ter de fazê-lo enquanto uma pessoa na mesma sala desvirtua toda a piada de o fazer. Isso e gesticular de tal maneira que começa a ser complicado perceber onde estão os monstros, se no ecrã se no sofá mesmo aqui ao lado. Não deixo de sentir que ela tem razão, e que talvez pudesse estar a aproveitar melhor o tempo, mas só me faltam três elixires de energia para conseguir ultrapassar a cave dos zombies...
- Horas a fio que se perdem a ver essas coisas, horas a fio que podiam ser utilizadas para outros fins. Quantos livros lestes estes últimos meses?- o ataque continuava, mas já tinha passado a parte dos zombies. Aos poucos, passar este nível começa a parecer fácil, comparado com a violência que aqui ao lado se passava- Vá, lá, quantos? Tudo bem... Talvez não seja a tua actividade preferida... E museus, a quantos foste? Caramba, algo tão simples como sair de casa, comprar um bilhete e entrar e apreciar algo que, de uma forma especial, é extraordinária... um quadro pintado, uma peça esculpida, o engenho do homem concentrado nalguma folha de papel. Mas não, é internet, é televisão, é cinema do mais estapafúrdio... Diacho, inventaram a internet para se evitar o contacto entre pessoas. Isto é ridículo! Cabe na cabeça de alguém viver sem tocar noutras pessoas?- só me falta um monstro, agora, antes de chegar à parte fatídica deste nível...- Vá lá ainda jogas à bola e andas de bicicleta, porque senão serias uma autêntica batata de sofá. Não me leves a mal, eu só acho que podes fazer mais coisas com o tempo que tens disponível. Toda a gente deve aproveitar melhor o tempo que tem disponível, e talvez tentar contribuir para a existência de actividades como a arte, a música que tanto gostamos...- é agora, desviar, desviar, disparar, disparar...- Mas tudo bem, também ninguém tem de ser igual. Nem todos têm de gostar de ler, de tocar um instrumento, de pintar. Só um pouco menos de futilidade na forma como se vive, como se aproveita a coexistência com as outras pessoas, a troca de experiências. Nem o amor, hoje em dia, decorre sem os sms ou os messengers... Tudo á distância, a um toque de teclado. Tudo virtual... Não tarda esquecemo-nos de sentir...- só falta um tiro certeiro...
- Arghhh!!! Caramba mais este nível!!!
- Enfim, desisto... Estou a falar para o boneco, não vale a pena... Vou à cozinha, preciso de café... Ou algo mais forte.
- Se fores buscar uma cerveja, traz-me uma também.
Ela respondeu com um grunhido. Já não era a primeira vez que as diferenças entre o aproveitamento particular dos tempos livres eclodiam num manifesto pessimista anti-era dos telemóveis. Não deixo de concordar com ela, mas quando existe espaço para a escolha, naturalmente que a comodidade ganha em qualquer campo. E num dia de calor destes, só sair à rua torna qualquer aventura cultural numa tarefa herculiana. Nem todos gostam de ler livros, e talvez a internet, quando bem utilizada, possa ser bem mais instrutiva que um livro. Afinal, a internet é criada por pessoas, para pessoas, com o intuito de chegar a mais locais e a ser compreendida mais rapidamente e eficazmente. A internet já ulptrapassou a televisão como elemento mais instrutivo, e sem dúvida, mais imediato. Nem mesmo uma visita ao museu dispensa uma consulta de preços e horários e programa nalgum site existente. Nada substituí o prazer de ler um livro, de pegar numa folha e desenhar, de conversar olhos nos olhos com um amigo. Acho que a internet já perdeu essa batalha mesmo antes de ter começado.
Neste dia normal de Verão de calor intenso, com a noite a ameaçar terminar o crepúsculo, reiniciei a Playstation, peguei no comando e sentei-me diante do televisor. Queria mesmo terminar aquele nível. Talvez a cerveja a fizesse acalmar...
- Está aqui a tua cerveja- disse ao regressar da cozinha- se quiseres trago-te um copo.
- Não é preciso, obrigado.
- Tá a ficar escuro. Vou aceder o candeeiro.
- Sim sim, faz isso.
- Ainda a tentar passar esse nível?
- Estou quase a desistir, falha-me sempre qualquer coisa, um salto ou um tiro...
- Deixas-me tentar?
- Claro...
- Explica lá os básicos disto.
- Rebentas cabeças de monstros e foges dos feixes de protões...
- Parece fácil, acho que consigo salvar o mundo.
