segunda-feira, março 27, 2006

Gosto de me sentar na parte de trás do autocarro.

Quando vamos ter o nosso momento? Uma pergunta pertinente e algo comum por entre esta espécie que é o Homem. Por entre divagações várias, opiniões diversas e uma ou outra prosa mais filosófica, cada um encontra um caminho para se ir esgueirando e aos poucos, tenta encontrar a sua resposta. Afinal, momentos são muitos, e cada um tem o seu... acho.

No fundo, no fundo, apesar das confusões e mal-entendidos, os dias continuam a ter 24 horas, as semanas 7 dias e os autocarros continuarão a chegar 40 minutos atrasados. "Porque é que me levantei tão cedo? Será que não aprendo?".

Hum... A vida é curta, dizem uns, se não aproveitas o que te dão, mais valia nem estares cá, dizem outros... Bom, acho que é tudo uma absoluta perda de perspectiva. Pura e simplesmente não conseguimos conciliar os nossos desejos com o momento de os obter. "Xiii, mais um daqueles dias..."

- Pensas demais...- disse-me ela, não há muito tempo.
Ora yah, e depois?, um facto, mas, quando olho em redor, vejo muitas vezes o absoluto oposto. Alguém está certo? Não acredito, cada um que cuide de si pois cada desejo é pessoal e na maior parte dos casos, intransmissível (estou sempre a recordar a velha máxima, não faças aos outros o que não queres que façam a ti, nem todos gostam de bolo de chocolate com laranja). Mas o que acaba por confudir qualquer modo de acção particular, é que, ao fim do dia, vamos estar constantemente a pisar os calos uns dos outros, seres racionalizantes e não só, porque ao desejarmos algo, temos de deixar de lado a ideia que estamos sozinhos para tentar obtê-lo. Estamos num formigueiro constante de choques, empurrões, berros e escorregadelas. Isto até tem alguma piada, porque tem, mas é tão confuso que, bom, que é isso mesmo...


- Tens razão- retorqui- já agora, passas o ketchup?
Senti alguma tensão no gesto que ela fez ao passar-me o frasco, o movimento quase displicente contrastou com o baque que o dito fez na mesa, seco e ensurdecedor...
- Obrigado- besuntei o meu hamburguer com aquela mistela, ela olhava para o infinito, com uma batata-frita na mão, a pender entre o polegar e o indicador. Acho que evitei uma discussão para começar outra...

"Que porra, estou atrasado...", olhava para o telemóvel, tentando decifrar as horas. Atrasado, com ramelas nos olhos e com a mania que sou filósofo... e ainda por cima tinha o carro em casa, suficientemente perto para pensar duas vezes, suficientemente longe para saber que, assim que saisse da fila da paragem, que um haveria de passar, e eu ficaria exactamente no ponto certo para não o conseguir apanhar. Decidi não arriscar...

Tentava encontrar distracções em meu redor, mas as caras ainda mais ramelosas dos meus companheiros de fila fizeram-me procurar o meu salvador-de-manhãs portátil: o leitor de MP3. Enquanto desenrolava o fio dos headphones, o autocarro chegou... na hora exacta para eu não conseguir por os phones, nem tirar a carteira com o passe, nem sequer perceber se estava a entrar no autocarro certo. "Argh". Ao menos acho que tenho lugar na parte de trás do autocarro, se a senhora gorda se desviar e o tipo que já cheira a suor de três semanas desviar o sovaco para o outro lado. De headphones encaixados, e os The Bravery a tocar, on commence le festival! Ah, claro... O autocarro estava cheio, parece que o senhor do sovaco cheiroso vai ser o meu companheiro de viagem.

2 Comments:

At 2:34 a.m., Blogger pepper said...

adoro a espontaneidade!!!... o quotidiano e o tão-mais-que-isso por detrás de um gesto simples...

já agora... gosto de me sentar na primeira cadeira do autocarro, aquela logo atrás do condutor, evitando a rabugice da manhã a notar quem entra e a imaginar em que paragem sairá, inventando mil histórias a cada personagem que vejo repetir esse gesto de validar o passe...

 
At 2:25 p.m., Anonymous Anónimo said...

Eu gosto de me sentar no meio do autocarro, naqueles bancos perto da porta. É que em hora de ponta ter de atravessar um mar de gente, não é coisa que me apeteça fazer logo pela manhã. Assim perto da porta, levanto-me mesmo na altura em que o autocarro está a parar e só tenho de pedir licença à senhora, que decidiu que o melhor sítio para colocar o seu corpo gordo, é mesmo em frente à saída do autocarro. Enfim! Bem melhor que o senhor do sovaco com cheiro de 3 semanas

Beijos,

Rita

 

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