Combate de Sumo
Eram 5 horas da tarde. Uma cor alaranjada, crespuscular, enchia a sala, espalhando sombras pelas paredes, aquecendo a casa, convidando à reflexão. Ouviam-se uns pássaros, o burburinho da cidade entra pela janela, aberta de par em par, deixando deslocar-se uma pequena corrente de ar. De facto, um destes dias convidava ao passeio, à descoberta das ruas, dos recantos, daquela esplanada. Tinha de estar em casa a arrumar a minha trouxa, mas não deixava de sentir um aperto no estômago por não estar a aproveitar esta dádiva da natureza, esta bela tarde de Primavera. Bom, ou isso, ou o almoço começava a ser digerido.
- Eh lá, (fiiuuu)... Que é que morreu aqui?
- Pouca bulha, acho que estou mal do estômago.
- A feijoada da tua mãe é fogo, ah ah ah.
- Goza, goza... Tou farto de dizer aquela mulher que não gosto de feijoada ao almoço. Passo o resto do dia a pensar que tenho um combate de Sumo na barriga- terrível hábito familiar, feijoada ao domingo de tarde, acho que a minha mãe o faz para nos educar... ou isso ou pelo prazer de sentir que ainda tem poder sobre a nossa existência.
- Bom, para a próxima, tenta comer um pouco de deodorizante também...
- Sim, sim...
- Que fazes?
- Descubro como a vida é ingrata para aqueles que gostam de viajar.
Já faz três horas que ando à volta da mochila, a tentar desesperadamente arrumar nela toda a roupa que vou precisar para uma semana de férias. Sou um fiel seguidor do travel light, acho que funciona muito bem para quem consegue sobreviver debaixo do cheiro de suor e de sebo, com uma mochila às costas, sem se preocupar com as clareiras que vai abrindo entre os locais nas zonas que visita. Levo sempre um pouco mais de roupa, por mais que a mochila rebente as costuras, não seria apanhado num país estrangeiro num estado lastimável: sem dinheiro, ok; perdido, muito bem; desesperado, pode ser, mas nunca de calças rotas castanhas, que outrora eram jeans azuis, e t-shirt com marcas dos sovacos ou dos locais que atravessei.
- Para variar, continuas a exagerar na quantidade de roupa que levas.
- Já te disse o que penso disso...
- Ok, ok, simplesmente, acho que podes prolongar a vida das tuas costas e da tua paciência com umas pequenas poupanças de tecido.
- Pah, isto já deu uma vez no ano passado, isto há de dar outra este ano.
- Ok, vou fazer chá, interessado?
- Sim, pode ser, pode... - precisava de calma, estava quase a conseguir... só tinha de encaixar o saco-cama entre as meias e a toalha do banho que estava prestes a saltar da mochila.
Viajar tem este condão de nos motivar a continuar a fazê-lo. Por mais que soframos a arrumar malas, a escolher roupa, destino, pessoas com quem ir, pessoas que vamos encontrar. Tenho esta ideia que viagens nunca correm mal. Que tudo pode originar uma descoberta, enganarmo-nos nas ruas, pensarmos que alugamos um quarto numa zona fantástica e afinal temos uma parede de tijolo a tapar a janela... enfim. Hoje posso dizer que vivo para viajar, quem sabe, à procura de um novo poiso. Mas, primeiro, conseguir que os boxers caibam na bolsa de lado da moch...
- ARGHH!!! - como esperado, explodiu.
- Precisas de ajuda? - perguntou ela, com um tom jocoso, mexendo o chá com uma colher.
- Não sei como podes resolver esta situação, mas podes tentar.
Ela, muito calmamente, poisou o chá, esvaziou a mochila, alinhou as peças de roupa uma a uma, começou a colocá-las, e como por artes mágicas, com a destreza de um artesão idoso que executa o seu ofício de olhos fechados, empacotou a mochila em pouco mais de cinco minutos, com tudo o trapo que quis lá meter, sem sobrar nada, e ainda deu para ter folga nas presilhas dos fechos.
- Mas como? - perguntei perplexo...
- Vocês gajos só conseguem mesmo mijar de pé...
- Ei, também conseguimos apontar... - bom, alguns conseguem.

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