Tecnologia de ponta o ca... (Isto é só desgraças 3)

(Continuação)
Chegado à zona das caixas, é natural que teria de aliviar um pouco a carga. O cesto estava cheio, pesado, ao invés dos meus bolsos. Manobras de evasão eram necessárias, um novo plano já estava a ser traçado... as compras supérfulas iriam ter de desaparecer.
Voltei atrás, tive de passar de novo pela zona das bebidas, deixei uma das Coca-Colas, devolvi os pacotes de batata-frita à prateleira... Contei os trocos... o detergente também teria de ficar, afinal, não tenho de mudar sempre de meias ou de calças de ganga. Ah, claro, as pastilhas também eram lastro... iria deixá-las na zona das caixas.
Como tudo na vida, nem sempre as coisas correm como planeamos. Quando pensamos que temos tudo sobre controlo, algo ou alguém arranja maneira de nos fazer repensar nos passos que temos planeados. Nem sempre é bom, nem sempre é mau (sempre levo uma garrafa de Coca-Cola para casa). Apesar de tudo, interessa saber recalcular trajectórias, ver outras saídas, talvez até planear menos. Interessa saber que cada passo dado é um avanço, e que cada recuo, é um desvio apenas para um passo maior. "Living is learning", lá diz o outro. Sim, concordo. Hoje aprendi mais qualquer coisa, aqui mesmo, entre os pensos higiénicos e as fraldas para bebé, rodeado de gente indiferente, com seus fatos de treino vestidos, e da senhora velhota de muletas, que ainda me olha de alto abaixo com desprezo, depois do incidente na zona da padaria.
Dirigi-me às caixas, refeito das minhas derrotas, ciente da lição aprendida. Tão contentado que decidi que iria passar pela padaria, comprar um bolo. Uma pequena prenda pelos meus avanços. O dinheiro chegou mesmo à conta... E ainda sobrava para o meu bolo. Afastei-me da caixa, ajeitando as poucas compras que tinha, dei um ultimo glance sobre o horizonte de produtos nas prateleiras... a senhora velhota de muletas ainda olhava para mim. Alura certa para sair.
O dia já ía avançado. Muita gente já tinha almoçado, mas ainda se sentia o cheiro dos fritos, provenientes dos milhentos restaurantes espalhados pelo bairro. As lojas chinesas ainda faziam negócio e algumas lojas de reparações ainda mantinham as portas abertas. Nunca se sabe quando uma televisão vai dar o berro, "tecnologia de ponta o ca..." lá diz o meu pai. Educadamente deixo escapar um sorriso sempre que ele o diz. O tempo continuava tímido, algumas nuvens ainda pairavam mas já se sentia algum calor. A chuva que ameaçava cair passou apenas a ser uma ténue ameaça. As ruas estavam mais calmas, com menos gente. O senhor Gomes já tinha recolhido as revistas e preparava-se para fechar o quiosque. Era melhor despachar-me, a padaria iria fechar em breve.
Entrei a correr pela padaria. Sentir o cheiro da farinha, do pão, é um dos prazeres que tenho. Não haviam clientes na loja. A dona Maria olhou para mim, com aquele olhar de "lá vem o cromo da hora de fecho". Não liguei muito, afinal, quase uma manhã perdida entre tentações, confusões, e uma boa lição zen aquirida numa garagem transformada em supermercado, eu estava ali para recolher o merecido prémio.
- Olá, dona Maria!- disse num tom entre o triunfante e o cordial.
- Diga menino...
- Queria uma arrufada, daquelas enormes que costuma ter, se faz favor.
Esperando ouvir o "concerteza, menino", já sentia o sabor do cocô a derreter-se na minha língua, o aveludado açucar em pó a misturar-se com a minha saliva, a massa tenra de farinha doce a ser moída pelos meus dentes...
- Já não temos menino, só pão quente.

1 Comments:
a justiça acaba por aparecer mais cedo ou mais tarde... é o que dá não entregar pãozinho às velhotas de muletas..(aposto que ela acabava por te pagar umas Chips A Hoy).
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