quarta-feira, março 29, 2006

Malditas bolhinhas caramelizadas (Isto é só desgraças 2)

(Continuação)

Tenho uma técnica infalível para ir ao supermercado sem grandes chatices e de maneira a não comprar coisas que são desnecessárias: não ter muito dinheiro para gastar. Como não tinha trazido a carteira e só tinha comigo um punhado de trocos dentro do bolso, acho que tinha tudo a meu favor para fazer uma visita de médico a esta pequena montra de consumo.
O supermercado estava apinhado, claro. Peguei num cesto e comecei a demanda pelos produtos necessários.

Comparo a ida ao supermercado com o percorrer do nosso próprio caminho, que no fundo é a vida. Temos um percurso a trilhar, locais onde ir, onde parar mais tempo, onde vamos encontrar dúvidas, onde teremos de tomar decisões mais ou menos complicadas (batatas-fritas normais, com travo a presunto ou com sabor a pita shoarma). Ocasionalmente, conhecemos uma pessoa, amiga de outra, que também gosta de doses industriais de Nutella e de comprar o mesmo tipo de papel higiénico. Teremos problemas para chegar a certos sítios, que obrigam a uma maior ginástica (senhoras idosas mais desatentas que gostam de nos morder os calcanhares com os carrinhos de supermercado), outros que obrigam a fazer cálculos complicados, desvios de trajectória causados por tentações pérfidas (vinho de pacote em promoção).. Enfim, a nossa consciência está sempre a ser posta à prova. Somos peões no jogo do marketing grossista!

"Limões, limões...", onde param os limões... Logo à entrada, na zona da mercearia. Bom, deviam estar aqui, mas, vejo apenas umas bolas esverdeadas, meio esmurradas, com uma sinalética a dizer limões... Ok, altura de admitir: a Lei de Murphy existe, e hoje eu estava cheio dela.
"Limões não há, vamos à pasta de dentes...", zona de higiene. Diacho! Tenho de passar pelas bolachas para lá chegar... hummm... Belgas com chocolate, o belo do sortido Cuétara, as Oreos, argh, resistir, resistir... Antes de ceder aos tentáculos cremosos das bolachas com recheio de chocolate, consegui urdir um plano para fugir a esta espiral de depravação calórica: "preciso de detergente para a máquina de lavar roupa, ele está junto aos produtos para a casa, logo, posso desviar por ali, apanhá-lo, passar pela zona das bebidas, e desembocar no vale dos artigos de higiene". Soltei um "hooah" triunfante, que fez meio mundo olhar para mim surpreso. Ah, ah, ah, não me tentarás desta vez!

Peguei no detergente, estava caro, mas, tinha de ser... corria o risco de começar a lavar a roupa com água e calcário. "Ok, ok, one down, two to go...", pasta de dentes... Bastará não olhar para as Coca-Colas e é só um corredor para passar. Claro, quando cheguei perto das pastas de dentes, não havia a que uso. Só as topo de gama, branqueantes, suavizantes, descarieantes, deslumbrantes, "compre a nossa, e terá tudo o que sempre sonhou" (desde que seja qualquer coisa parecida com um hálito fresco). Argh! Escolhi a mais barata que consegui, comecei a lembrar-me dos poucos trocos que tinha... "Não está mau", acho que dá para o pão... Bom, claro, quando dei por mim, também tinha uma garrafa de Coca-Cola no cesto, um gajo não é de ferro. E que faziam aquelas pastilhas elásticas perto da embalagem do detergente? Fui directo à padaria, hoje era um daqueles dias onde todo e qualquer plano iria simplesmente falhar. Isto é só desgraças.

Juntando o útil ao agradável, quase não restava pão. Apanhei o último saco de carcaças... Uma pequena vitória, dado que o vi ser cobiçado por uma velhota que estava de muletas a dirigir-se a ele. "Pão? Check"... Bom, parecia que tinha tudo... Embora o cesto, aos poucos, me parecia mais pesado... OUTRA GARRAFA DE COLA?!? Malditas bolhinhas caramelizadas... sabem tão bem com... dois pacotes de batatas-fritas. Senti-me derrotado:

- Raios partam a...!

1 Comments:

At 4:42 p.m., Anonymous Anónimo said...

O fanático de Coca-Cola!!
É bom com gelo e limão...

Mas olha que um Martini Bianco, ui ui

Gostei da descrição no supermercado. Quantas vezes acontece ir buscar uma coisa, e sair de lá com o saco cheio e a carteira vazia? Maldito marketing!

Beijo,

Rita

 

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