segunda-feira, março 27, 2006

Aquele telemóvel não cabia no meu bolso...


- Tás a chorar?
- Quero miminhos...
- Oh que... Andaste a ver aquela porcaria outra vez?
- Hei- dei um berro mais forte- "Os Marretas" não são porcaria...
- Era só o que me faltava agora... Um gajo de 25 anos com ataques de saudosismo precoce.
- A lobotomia que te fizeram está mesmo a começar a fazer efeito... Para tua informação não estou a chorar, simplesmente estou a lembrar-me dos meus programas preferidos.
- Oh que...
- Atreve-te a dizer isso aqui em frente ao ecrã... Andas a negar ver isto faz tempo... Porquê?
- Porque não tenho tempo.
- Fogo, para quem não tem tempo passas muito tempo aqui em casa a gozar comigo...
- Olha, por falar nisso. Depois de pensar mais um pouco, acho que vou mesmo sair de casa dos meus pais...
- O... O QUÊ?- acho que consegui esconder alguma supresa negativa.
- Descansa, não venho morar para aqui... Pelo menos enquanto tiver outras possibilidades...

Uff, por momentos vi o meu castelo transformado num palácio de princesas, sem o meu fosso anti-dragões, substituído por uma piscina com área lounge e long-chairs, onde se iriam servir margueritas em vez de caldeirões de azeite a arder para deleitar os inimigos.
- Estive a ver uma casa com uma amiga minha. Iria alugar agora, só por uns tempos.
- Quem, aquela toda jeitosa?
- Sim. "Aquela toda jeitosa"... Estivemos a espreitar na internet umas possibilidades, mas ambas gostavamos de ter mais espaço, tipo, um quarto para cada uma, uma casa-de-banho espaçosa...
- Sim, imagino como seria, uma casa pequena, tu a saires do banho, ela a vestir os collants... "ajudas-me a secar as costas?", humm...
- Argh, que porco! Como é que eu ainda falo contigo destas coisas.
Ela saiu da sala, eu voltei para os meus "Marretas"... O Cocas é hilariante, mas o meu preferido é definitivamente o Animal!

Enquanto me acomodava no sofá, comecei a pensar no que ela me tinha dito. É estranho todo este saudosismo. Falso ou não, existe. Só o consigo explicar olhando para a forma como os tempos avançam tão depressa, hoje em dia. Existem tantas transformções, tantas coisas novas a acontecer a todo o instante, que é natural que este tipos de sentimentos surjam, também, um pouco mais cedo. Olho para um caso simples, os telemóveis. Quando nasci não existiam, depois apareceram, e já passaram por tantas transformações que se pode dizer que cresceram comigo, mas a um ritmo bem mais acelerado. Ainda me lembro dos telefones de disco, de aparecer o primeiro telefone de botões em minha casa, e do primeiro tijolo (vulgo telemóvel antigo). Tendo em conta que quando o meu pai tinha a minha idade existiam telefones de disco e que assim permaneceu até bem depois de eu nascer... Pelo menos, acho que é isto, não consigo pensar noutro tipo de explicação. Acaba por ser quase um gesto inconsciente.

- Eh, eh, eh...- o Fozie é hilariante!
- De que é que te estás a rir?- disse ela já de volta à sala, olhando de soslaio.
- Ah, voltaste...
- Precisava da tua opinião... Encontrei umas casas aqui num jornal que parecem interessantes. Três assoalhadas... Mas parecem tão pequenas...
- Sim, pode ser um problema, tu na sala em camisa de noite, ela a passar "ajudas-me a desapertar o soutien?", humm...
- Pah, juro-te que levas um sopapo se te pões com isso outra vez, nojento...-não tirei os olhos do televisor... Ela sentou-se na ponta do sofá, fingindo-se desatenta- Que episódio é esse?
- Aquele em que aparece o Alice Cooper, da terceira série...
- Ah... lembro-me disso... Lembro-me de ver esse na televisão em casa da minha avó.
Aos poucos foi-se acomodando no centro do sofá. É engraçado como somos imediatamente transportados para o passado num instante. Dizem que ainda não se inventou a máquina do tempo. Discordo plenamente... Podemos encontrá-la numa fita VHS ou numa cassete perdida entre a tralha que temos escondida na última prateleira do armário da marquise.
- Que se passa?- perguntei ao sentir um soluçar perto do meu ouvido.
- Quero as minhas bonecas...
- Oh que...