segunda-feira, março 27, 2006

"Hot asians"



Começa a fazer um pouco mais de calor. Percebo pelas abundantes manchas de suor que se formam na camisola dela. Não me importo, até acho piada. Faz-me sentir mais perto de uma pessoa real e não de uma estátua, vulgo cânone criado e embelezado por uma sociedade sedenta de ser mais do que aquilo que de facto consegue ser.
- Está a ficar abafado, hum?
- Hum?... Ah sim... Está um pouco, sim. Abres a janela?
- Posso abrir, mas vais constipar-te.
- Nah, está calor lá fora... Abres a janela um pouco, estou aqui a acabar uma coisa.

Abri a janela... uma brisa fresca entrou pela sala adentro. Estava sol, tive de semi-cerrar os olhos. Algum burburinho lá fora, mas o bom de estar num bairro sossegado, no meio de uma cidade, sempre podemos apreciar um pouco as cores, formas e feitios das pessoas, carros, casas, etc, sem precisarmos de ginasticamente fugir de carros, motas de estafetas e dos constantemente esburacados passeios:
-Estamos mesmo a entrar na Primavera!- exclamei, de olhos fechados, fitando o sol com o rosto, que já sentia quente, enternecidamente acariciado pelos raios de luz, carregados de energia.
- Hum?... sim... bom, hum...- apoteótica reacção. Virei costas à luz, sentei-me no parapeito da janela, olhei para o relógio da parede... tinham passado dois minutos.

- Não tens computador em casa?
- Vais começar com essa história outra vez?- respondeu ela, continuando a teclar de forma mecânica, ininterrupta.
- Bom, acho que não tinhamos acabado a conversa da outra vez...
- Já te disse que o meu computador está estragado- ainda sem parar o dedilhado.
- Não me leves a mal, mas se precisas trabalhar com um computador, devias ter um só teu, com as tuas coisas, etc.
- Estás com medo que descubra as tuas pastas de imagens porno?
- Não é por isso- claro que era...- Como te disse, acho que seria mais fácil, nem sempre estou disponível, e por exemplo, não me apetece estar em casa agora.
- Já estou quase a acabar...
Soprei um pouco, mas ela provavelmente nem ouviu... É o que dá sermos prestáveis, alguém arranja sempre maneira de transformar a nossa boa vontade num serviço público com horário de expediente. Levantei-me e fui beber um copo de água.

Queria mesmo aproveitar o calorzinho. Passear nas ruas, pegar no carro sem destino. Bom, ok, ir aquele bar que serve aquelas tostas deliciosas e beber uma cerveja. Sou um gajo simples, com gostos simples... Simples, simples, não serei bem, e até gosto de coisas complexas. Facto, estar ali em casa fechado, à espera que aquela tipa se despachasse a escrever um texto qualquer... Punha-me nervoso. Desde que tenho um emprego que deixei de ter tempo para viver certas coisas. Perdemos de um lado, ganhamos de outro. No entanto, autorizo-me um momento de fúria sempre que penso na ironia vil de certas coisas: enquanto estudante, tinha tempo para tudo mas tinha sempre o dinheiro contado e os bolsos vazios, agora, trabalhador profissional, até tenho algum dinheiro para gastar mas pouco tempo para o gastar... Isto é mesmo gozar com um gajo.

- Pronto, acabei- disse ela, levantando-se.
- Finalmente. Vais imprimir?
- Sim...
- Ah, ah, eu disse-te que estava frio.
- Hum? Páras de olhar para o meu peito?
Corei um pouco, mas eu tinha-lhe dito. Parecia ter saído de um banho de água fria.
- Epá, vocês homens são sempre iguais... Fogo. Deviam nascer com um par de mamas só para perceberem o quanto isso é desagradável- Ok, nem era uma má ideia, desde que fossem tipo próteses, para eu não ter de olhar para o peito de um amigo meu e pensar coisas menos próprias... gack!
- Queres boleia para algum lado?
- Tás com cara de quem vai comer uma tosta lá aquele bar, né? Ok, aceito a boleia desde que me pagues um chá.
- Outra vez? É o computador, é o chá, levas-me à falência.
Ela sorriu. No fundo até agradecia a companhia, hoje apetecia-me comer a minha tosta mista enquanto discutia o novo orçamento de estado ou a recente tendência da política de esquerda nos países de Leste.
- Ah, já agora- virou-se ela, algo abruptamente- não escondas pornografia numa pasta com o nome "hot asians", não dá muita luta a quem anda à procura de elementos incriminatórios...

Porra!

2 Comments:

At 8:40 p.m., Anonymous Anónimo said...

Pô bixo! Tu virô féra mêrrmo! Tá do cácêtji essi trôço!

Mas agora falando de coisas mais sérias: pô cára! tenho dji tji párábênizá por êss négóice qui ócê péga levi naum! Ágóra cumpadri, fica mi ólhandu com éssâ cára dji filha du pádêiru, qui tu só pódji cê viádu: qui cunvérsâ é éssa dji fácuutá comptádô pá minâ, págá cházinhu (nóssâ quaum gay!) e dji cumê tóstâ (quessi negóice dji tóstâ só pódji sê coisâ dji fráncêij viádu né?). Bem qui tu já vái lá no fundo do ônibus, prá cheirá sóváco, né meu bródé? Vai qui tu num m'ingana com essi êngôdo de dirêctôrios pórrnô, qui tu devi tê é meu rrédjifôni! Eu tô sábêndo, tu num tem végonha merrmo!

Bom, chega disto que já estou cansado. :P Dá-lhe forte, e continua! Se o design falhar, podes sempre tentar a vida como escritor de blogs! Tens futuro!
Cheers!
Macacu Peladu

 
At 11:30 p.m., Blogger cinnamon said...

sem surrealismo... a banalidade descrita de forma tão delicada...prendeste-m a este momento...cá espero mais.

 

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