sexta-feira, abril 28, 2006

Eh pah, este café é terrível (Stockholm Trip 1)




"Neste stasjon, Gamla Stan". Uma voz grossa, pesada do tabaco, digna da personagem principal de um filme de terror (o assassino psicopata anti-social), ecoava nos altifalantes do T-Bana.

- É aqui, temos de sair aqui...
- Tens a certeza?
- É o que diz no mapa.
- Mas percebeste alguma coisa do que o tipo disse?
- Não, mas pela voz do gajo é melhor sairmos senão ele ataca-nos com uma moto-serra... Vá, pira-te.

Estavamos em Estocolmo, finais de Abril.... e tinhamos saído de facto na paragem correcta. A Primavera escandinava já se fazia sentir. Não existia uma mancha branca de neve à vista e corria uma aragem fresca, mas perfeitamente suportável. O Sol fazia antever um bom dia para passear e melhor, como não haviam nuvens, o por-do-sol prometia ser espectacular.
- Isto é lindíssimo!
- Sem dúvida- parámos na Old Town, fitando uma das margens da cidade. A cidade de Estocolmo é constituída por inúmeros arquipélagos, unidos por pontes. Não é uma cidade densamente povoada, pelo menos nas zonas centrais, ao contrário do que estamos habituados. Podemos ver os picos das torres de igrejas mais famosas e nunca se vê um arranha-céus desmedido no horizonte da cidade.

Ainda era cedo, mas já existia actividade suficiente para sentir que a nossa presença no meio da rua era turisticamente indesejada, visto quase termos sido atropelados por uma ciclista.
- Bolas, não é o condutor do Metro é uma tipa perversa loiraça numa bicicleta assassina...
- Vamos mas é sair da ciclovia... Não queres ir beber um café?
- Café? Aqui... Água suja, diz antes...
- Não sejas assim, deve ser bom de certeza...
- Pobre rapariga, não sabes no que te metes- como se não bastasse eu conhecer o "saboroso" café escandinavo, fiquei com vontade de seguir a potencial homicida de cabelo doirado, que se dirigiu na direcção oposta... "Diacho, onde anda a minha bicicleta quando preciso dela".

Entramos na Gamla Stan, que é, no fundo, o bairro mais característico e antigo de Estocolmo. É um conjunto de ruas estreitas, entrelaçadas, pejadas de lojinhas curiosas, com produtos curiosos. Muitos restaurantes e cafés. Algumas lojas de souvenires, como era de esperar, alguns bares. Dentro dele estamos numas cidade completamente diferente, quase latina, pela proximidade dos edifícios e consequente proximidade das pessoas, que passeiam animadas, seja a pé seja de bicicleta. Encontramos um café perdido no meio de uma praça sem sabermos muito bem como:
- Ainda bem que não percebemos nada de mapas... Não dávamos com este sítio. Vais querer café?
- Nem penses, quero ver o menu.
- Puto imbirrante... Vem aí o empregado, falas tu?
- Ver se não me engano e peço dois arenques fumados...

Lá arranhei o meu inglês, espero ter feito o pedido certo. A praceta era pequena, mas muito característica. A roubar o protagonismo estava o Nobelmuseet, o Museu dos Nobel, circundado por pequenos edifícios antigos, essencialmente construidos em madeira, pintados de várias cores, dando a ideia de uma manta de retalhos. O topo de cada edifício é diferente, com os seus rococós. As janelas, muito ortogonais e semelhantes, criavam um padrão interessante, decoradas aqui e ali com plantas ou flores, complementando o aspecto único da praça. Intervalando os prédios estavam pequenas e estreitas ruas em empedrado, desenhando uma curiosa teia de caminhos, dando a ideia de estarmos, de facto, no centro de tudo. Ouviam-se alguns pássaros, algum burburinho citadino, característico pela total ausência de buzinadelas e pelo barulho metálico, repetitivo e quase sci-fi do T-Bana, ao passar pela ponte de ferro que une a T-Centralen (Estação Central) e a zona de Slussen. Entrentanto, enquanto decidíamos onde ir, tinha chegado o nosso pedido. Estavamos indecisos entre a ilha de Skeppsholmen, onde estava o Moderna Museet (Museu de Arte Moderna) e o Arkitekturmuseet (Museu de Arquitectura), ou a ilha de Djurgärden Park, onde estava o Vasamuseet (onde estava o galeão Vasa). De qualquer maneira, tinhamos decidido alugar umas bicicletas para conhecermos melhor a cidade.
- Eh pah, este café é terrível...- sorri para dentro enquanto saboreava o meu chocolate quente.

Antes de sermos atacados pela pachorrice, iniciámos o nosso plano. Tinhamos decidido ir a Djurgärdens Park, pois existiam lá uns locais para visitar e muito caminho para percorrer com as bicicletas. Com alguma sorte, iríamos encontrar um local para vermos o por-do sol. Pagamos uma pequena fortuna pelo café, o que a fez reclamar um pouco mais, e lá fomos perdidos pelas ruelas, em busca do autocarro número 47, que nos iria levar perto do Museu Vasa.
O autocarro percorreu boa parte da rua mais comercial da cidade. Muitas lojas de roupa, design, um ambiente a todos os níveis cosmopolita. A espaços passávamos por pequenas praças, pejadas de esplanadas, quiosques de flores e algumas tendas de bugiganga. Não era de estranhar o movimento intenso de pessoas nestes locais. Pareciamos crianças dentro do autocarro, saltando de banco em banco e apontado para tudo o que fosse engraçado, concerteza enervando todos os outros passageiros. "Neste stasjon, Vasamuseet!"
- Argh, é o tipo do metro outra vez!!! Pira-te, é aqui!

quarta-feira, abril 05, 2006

Combate de Sumo

Eram 5 horas da tarde. Uma cor alaranjada, crespuscular, enchia a sala, espalhando sombras pelas paredes, aquecendo a casa, convidando à reflexão. Ouviam-se uns pássaros, o burburinho da cidade entra pela janela, aberta de par em par, deixando deslocar-se uma pequena corrente de ar. De facto, um destes dias convidava ao passeio, à descoberta das ruas, dos recantos, daquela esplanada. Tinha de estar em casa a arrumar a minha trouxa, mas não deixava de sentir um aperto no estômago por não estar a aproveitar esta dádiva da natureza, esta bela tarde de Primavera. Bom, ou isso, ou o almoço começava a ser digerido.

- Eh lá, (fiiuuu)... Que é que morreu aqui?
- Pouca bulha, acho que estou mal do estômago.
- A feijoada da tua mãe é fogo, ah ah ah.
- Goza, goza... Tou farto de dizer aquela mulher que não gosto de feijoada ao almoço. Passo o resto do dia a pensar que tenho um combate de Sumo na barriga- terrível hábito familiar, feijoada ao domingo de tarde, acho que a minha mãe o faz para nos educar... ou isso ou pelo prazer de sentir que ainda tem poder sobre a nossa existência.
- Bom, para a próxima, tenta comer um pouco de deodorizante também...
- Sim, sim...
- Que fazes?
- Descubro como a vida é ingrata para aqueles que gostam de viajar.

Já faz três horas que ando à volta da mochila, a tentar desesperadamente arrumar nela toda a roupa que vou precisar para uma semana de férias. Sou um fiel seguidor do travel light, acho que funciona muito bem para quem consegue sobreviver debaixo do cheiro de suor e de sebo, com uma mochila às costas, sem se preocupar com as clareiras que vai abrindo entre os locais nas zonas que visita. Levo sempre um pouco mais de roupa, por mais que a mochila rebente as costuras, não seria apanhado num país estrangeiro num estado lastimável: sem dinheiro, ok; perdido, muito bem; desesperado, pode ser, mas nunca de calças rotas castanhas, que outrora eram jeans azuis, e t-shirt com marcas dos sovacos ou dos locais que atravessei.

- Para variar, continuas a exagerar na quantidade de roupa que levas.
- Já te disse o que penso disso...
- Ok, ok, simplesmente, acho que podes prolongar a vida das tuas costas e da tua paciência com umas pequenas poupanças de tecido.
- Pah, isto já deu uma vez no ano passado, isto há de dar outra este ano.
- Ok, vou fazer chá, interessado?
- Sim, pode ser, pode... - precisava de calma, estava quase a conseguir... só tinha de encaixar o saco-cama entre as meias e a toalha do banho que estava prestes a saltar da mochila.

Viajar tem este condão de nos motivar a continuar a fazê-lo. Por mais que soframos a arrumar malas, a escolher roupa, destino, pessoas com quem ir, pessoas que vamos encontrar. Tenho esta ideia que viagens nunca correm mal. Que tudo pode originar uma descoberta, enganarmo-nos nas ruas, pensarmos que alugamos um quarto numa zona fantástica e afinal temos uma parede de tijolo a tapar a janela... enfim. Hoje posso dizer que vivo para viajar, quem sabe, à procura de um novo poiso. Mas, primeiro, conseguir que os boxers caibam na bolsa de lado da moch...
- ARGHH!!! - como esperado, explodiu.
- Precisas de ajuda? - perguntou ela, com um tom jocoso, mexendo o chá com uma colher.
- Não sei como podes resolver esta situação, mas podes tentar.

Ela, muito calmamente, poisou o chá, esvaziou a mochila, alinhou as peças de roupa uma a uma, começou a colocá-las, e como por artes mágicas, com a destreza de um artesão idoso que executa o seu ofício de olhos fechados, empacotou a mochila em pouco mais de cinco minutos, com tudo o trapo que quis lá meter, sem sobrar nada, e ainda deu para ter folga nas presilhas dos fechos.

- Mas como? - perguntei perplexo...
- Vocês gajos só conseguem mesmo mijar de pé...
- Ei, também conseguimos apontar... - bom, alguns conseguem.

sábado, abril 01, 2006

Tecnologia de ponta o ca... (Isto é só desgraças 3)


(Continuação)

Chegado à zona das caixas, é natural que teria de aliviar um pouco a carga. O cesto estava cheio, pesado, ao invés dos meus bolsos. Manobras de evasão eram necessárias, um novo plano já estava a ser traçado... as compras supérfulas iriam ter de desaparecer.

Voltei atrás, tive de passar de novo pela zona das bebidas, deixei uma das Coca-Colas, devolvi os pacotes de batata-frita à prateleira... Contei os trocos... o detergente também teria de ficar, afinal, não tenho de mudar sempre de meias ou de calças de ganga. Ah, claro, as pastilhas também eram lastro... iria deixá-las na zona das caixas.

Como tudo na vida, nem sempre as coisas correm como planeamos. Quando pensamos que temos tudo sobre controlo, algo ou alguém arranja maneira de nos fazer repensar nos passos que temos planeados. Nem sempre é bom, nem sempre é mau (sempre levo uma garrafa de Coca-Cola para casa). Apesar de tudo, interessa saber recalcular trajectórias, ver outras saídas, talvez até planear menos. Interessa saber que cada passo dado é um avanço, e que cada recuo, é um desvio apenas para um passo maior. "Living is learning", lá diz o outro. Sim, concordo. Hoje aprendi mais qualquer coisa, aqui mesmo, entre os pensos higiénicos e as fraldas para bebé, rodeado de gente indiferente, com seus fatos de treino vestidos, e da senhora velhota de muletas, que ainda me olha de alto abaixo com desprezo, depois do incidente na zona da padaria.
Dirigi-me às caixas, refeito das minhas derrotas, ciente da lição aprendida. Tão contentado que decidi que iria passar pela padaria, comprar um bolo. Uma pequena prenda pelos meus avanços. O dinheiro chegou mesmo à conta... E ainda sobrava para o meu bolo. Afastei-me da caixa, ajeitando as poucas compras que tinha, dei um ultimo glance sobre o horizonte de produtos nas prateleiras... a senhora velhota de muletas ainda olhava para mim. Alura certa para sair.

O dia já ía avançado. Muita gente já tinha almoçado, mas ainda se sentia o cheiro dos fritos, provenientes dos milhentos restaurantes espalhados pelo bairro. As lojas chinesas ainda faziam negócio e algumas lojas de reparações ainda mantinham as portas abertas. Nunca se sabe quando uma televisão vai dar o berro, "tecnologia de ponta o ca..." lá diz o meu pai. Educadamente deixo escapar um sorriso sempre que ele o diz. O tempo continuava tímido, algumas nuvens ainda pairavam mas já se sentia algum calor. A chuva que ameaçava cair passou apenas a ser uma ténue ameaça. As ruas estavam mais calmas, com menos gente. O senhor Gomes já tinha recolhido as revistas e preparava-se para fechar o quiosque. Era melhor despachar-me, a padaria iria fechar em breve.

Entrei a correr pela padaria. Sentir o cheiro da farinha, do pão, é um dos prazeres que tenho. Não haviam clientes na loja. A dona Maria olhou para mim, com aquele olhar de "lá vem o cromo da hora de fecho". Não liguei muito, afinal, quase uma manhã perdida entre tentações, confusões, e uma boa lição zen aquirida numa garagem transformada em supermercado, eu estava ali para recolher o merecido prémio.
- Olá, dona Maria!- disse num tom entre o triunfante e o cordial.
- Diga menino...
- Queria uma arrufada, daquelas enormes que costuma ter, se faz favor.
Esperando ouvir o "concerteza, menino", já sentia o sabor do cocô a derreter-se na minha língua, o aveludado açucar em pó a misturar-se com a minha saliva, a massa tenra de farinha doce a ser moída pelos meus dentes...
- Já não temos menino, só pão quente.